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- ARMANDA - Como, minha irmã? Mas que besteira! Você pretende abrir mão do nome de solteira?
- HENRIQUETA - É
- ARMANDA - É? Só esse É chega? Basta só esse É?
- HENRIQUETA - Mas, ora minha irmã, um casamento é só um casamento. Porque esse teu ódio ao casamento? É um ato de amor.
- ARMANDA - Um horror! Você não sente um arrepio de horror ao pronunciar essa palavra repugnante?
- HENRIQUETA - Arrepio, sim, mas não de horror.
- ARMANDA - A mim a palavra casamento só me traz visões imundas, submissões inúteis, contato repelente, não consigo entender você contente.
- HENRIQUETA - Pra mim a palavra lembra apenas marido, casa, filhos: existe nisso algo de assustador?
- ARMANDA - Mas uma mulher precisa se realizar.
- HENRIQUETA - E tem realização maior do que amar e ser amada, poder casar com o homem que deseja e construir com ele uma vida de compreensão e de felicidade?
- ARMANDA - Meu Deus, que aspiração mesquinha! Teu sonho é mudar fraldas, idolatrar um macho e lhe servir de capacho. Põe teus sentimentos em objetivos mais amplos, em prazeres mais nobres. Exemplo não falta: aí está mamãe a quem todos chamam sábia e devotam admiração. Não seguir seu exemplo é degeneração. Devia, como eu, se casar com a filosofia. A filosofia nos eleva acima da fraqueza humana e entrega à razão o comando supremo. Aqui é que brilham as chamas da virtude!
- HENRIQUETA - Cada ser, cada espírito, é uma fatia que nem sempre vem com a calda da filosofia. É melhor porém não discutir as intenções celestes, eu sinto: é melhor cada uma de nós seguir seu próprio instinto. A minha atitude é bem conciliadora, pois estaremos ambas imitando nossa progenitora. Você, o espírito científico, que não vacila nem erra; eu, o lado sensorial, sentimental, a simples leviandade da matéria.
- ARMANDA - É o lado melhor que a gente deve imitar numa pessoa.
- HENRIQUETA - Mas o outro lado existe e é fundamental. Se a mamãezinha não tivesse cedido ao lado material do casamento, acho que minha irmãzinha nem teria nascido.
- ARMANDA - Discutir com você é tempo perdido. Mas pelo menos me diz, quem você quer de marido? Não vai me responder que pretende Cristóvão.
- HENRIQUETA - E por que razão não pode ser Cristóvão? Por acaso ele tem cabeça grande, pé chato, é mal-educado?
- ARMANDA - Não: é bonito, elegante, muito bem-educado. Mas só uma mulher à toa quereria o que já é de uma outra pessoa. Acho que ninguém ignora que Cristóvão suspira por mim e não é de agora.
- HENRIQUETA - Sei, Armanda. Mas você renunciou ao casamento para sempre no dia em que se apaixonou pela filosofia. Confesse, se Cristóvão não te interessa, que te interessa então que eu me interesse?
- ARMANDA - Não quero pra marido o teu belo senhor mas acho-o indispensável como meu seguidor.
- HENRIQUETA - Jamais impedi que ele dedicasse suas adorações a teu talento. E confesso: só consegui Cristóvão porque você não o quis.
- ARMANDA - Mas a chama que ardia por mim estará completamente morta?
- HENRIQUETA - Ele me disse, Armanda: é por mim que ele delira.
- ARMANDA - Oh, minha bela irmã, que boa-fé. Quando ele diz que me deixa e que te ama, não mente só a você, a si próprio se engana. Eu conheço bem a condição humana.
- HENRIQUETA - Eu não sei, quem sabe? Pode ser. Mas não acho difícil esclarecer. Cristóvão vem aí; com a tua licença, vou perguntar o que é que ele pensa.